segunda-feira, agosto 31

Vestido azul e entranhas navegantes.!

E sim, passou pela minha cabeça essas questões de saudade e de ir e de talvez lá me instalar. E sim, eu quis me despedir, dizer logo que o amo e falar que hoje eu não estaria para ceia e nem amanhã para o meu cereal de frutas de todos os dias e que mesmo assim não sentisse minha falta e nem tivesse esperança de um possível retorno. Porque quando eu parto, não é para Milão e nem a Ilha de Rondim, um sonho é Inglaterra, mas eu achava bem mais econômico e vantajoso viajar para dentro de mim. Lá eu era capaz de conhecer todos os lugares do mundo, sem dar um passo para além dos abismos intermináveis da minha existência e sem o constrangimento por não saber nenhuma outra língua, além da minha querida. E mais, pra onde eu iria, era o exato lugar para pessoas assim, ora dolorosas, ora efusivas. Um estrago para o mundo, ou um mundo que estraga pessoas assim. E sim, eu não me despedi de ninguém, vão me achar dura, fria e mal dizer do meu egocentrismo. E sim, é isso tudo que me permeia. Uso um vestido azul. Da menina no país das maravilhas. E sim, é um fascínio descobrir como um corpo pode suportar tantas dores-cotidianas-sofrimentos-indubitáveis-fúrias-interiorizadas e mesmo assim ser terno e lindo por dentro. Dizendo sim para si mesmo, acreditando no mistério das navegações intra-pessoais e descobrindo o mais profundo dos oceanos e um fluir de perfeição. E sim.

terça-feira, agosto 11

Leva-me, Laika!.

'Só quero ir indo junto com as coisas, ir sendo junto com elas, ao mesmo tempo, até um lugar que não sei onde fica, e que você até pode chamar de morte, mas eu chamo apenas de porto'.
Abreu,Caio Fernando
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Para ele que é o nada e o tudo de mim: salva-me dessa indisgestão social. Hipocrisia terrena, no terreno que eu sobrevivo nem sei mais por que pra que com que. Onde eu piso,é areia movediça e mesmo nessa aflição de sentir apenas serafins arfantes ou inalar essa terra vermelha tenebrosa, eu suplico, derreto, indago - Por que me abandonastes, Caio ? - você que mesmo nem sabendo e nem compadecendo e nem morrendo ciente da minha existência, desse meu reles sobreviver, fez-me sucumbir ao abismo que é esse acordar do plexo solar: ser vago, ser pernas, ser mãos, ser espírito, ser nada. Outra Florbela em pessoa. Rosas, lírios ou desperdício de vida que não se vive. A trombeta de um anjo que sussura, um cântico à minha podridão, ao nosso lixo - a luz que acalenta seu coração, traz paz aos seus tormentos, segue o brilho, essa estrada feita de arco-íris e algodão doce feroz- Estampo nesse meu espanto facial, riso fácil. A conivência desse pecado de partir, de se partir e partir. É quase doce, meu bem. Procurei a vida eterna nos teus braços que apenas me acorrentaram, jorrei sangue pelas dores do mundo ou qualquer outro ferir que me tocasse. Eu sou toda hemorragia e pedaço que se despedaça ao compreender que o futuro é agora, e já não tenho mais solução. Eu me alimento da minha própria carne, crua e selvagem, partilhando as minhas pernas, mãos, espírito, um nada:dolorido, com quem dessa fome necessitar. Uma antropofagia que só busca a salvação, pois esperanças ainda tenho, não de mim e nem de você, talvez de nada, tudo. Mas uma espera divina que algo recompense a minha dor vivida, somente esse terror por existir. Senão for esse o caso, eu imploro: Leva-me, Caio, eu sei que você sabe que pode vir a ser um meu e teu desespero compartilhado, nossa morbidez necessária, querido.