sábado, fevereiro 28

Carta para um amigo.!

Escrevo - agora triste, absurdamente triste - Pra você. Pra ele. E pra mim. Eu, que antes vivia de uma maneira tão azougada. Calma. Diria até bonita. Hoje estou amarga. Garganta seca. Carência infernal. Subordinada ao seu desprezo. Trucidando um descompasso que descompassa as minhas necessidades. Súplicas extremas. Desculpas irrevogáveis. Queria. Não sei se quero. Mas como aquela tarde das minhas mentiras desesperadas. Duras. Podia ser esse instante das declarações mais singelas e puras e devotas do mundo. Do nosso mundo. Por você. Por ele. Eu alimentava, mastigava, degustava aquelas fantasias de contos ilusórios, devaneios inocentes. Verdade que tudo em ti me era doce. Uma donzela a espera do príncipe. De qualquer príncipe. Sabendo sempre das nossas fraquezas e impossibilidades. Tendo a exata certeza de que suas palavras. Digo, palavrões; alegravam a torcida mais infeliz que já existiu. Um time cá dentro, que sufocava, aterrorizava, fodia a minha sanidade. E só encontrava uma estranha paz - ou agitação crescente, ou paixão fragmentada, ou cor azul-ferrete que me trouxesse vida, ou uma arte milenar - num ritmo barulhento, na euforia dos seus dias que eu tanto precisava ser inquilina, porque de tanto perder-se, não moro mais em canto nenhum. E logo digo -Porra meu amigo querido. Volta à ser. Te quero bem. Um perdão. E axé.
(Em memória do cativo Caio F. Abreu)

quarta-feira, fevereiro 25

Tudo que queria te falar.!

- Abraça?
- Abraço.
- Pés frios.
- Mãos também.
- Vai, deixa eu te aquecer!
- Mais?
- Por que mais?
- Lá dentro oh. Aqui no meu peito sabe, onde tanto doía; hoje ferve, queima, corrói a minha moléstia. É turbulência de pequenas faíscas. Overdose de amor. Desejos escandalosos, quase obscenos pra alguém, pra todos. Essa casca dura, impenetrável, desgastante é só disfarce. Mentir um pouquinho o calor da sua proximidade. Abafar o tanto que te quero, que te espero. Muito, muito. Cada vez mais.
- Minha nossa, meu abraço tem esse efeito?
- Tudo em você me causa efeitos.
- Café?
- É quente. Chá gelado, por favor!

quinta-feira, fevereiro 19

Nocaute.!

E eu digo a todos, as borboletas, as orquídeas, ao meu íntimo,que nada mudou. É tudo seco e fugaz como antes. Como agora. Uma claridade cintilante que agoniza a minha visão. Acho linda essa delicadeza rara, essa tranqüilidade surreal. Tipo vagões desconcertantes dentro, fora. Algo que de tão puro, agoniza, pesa e faz cair. Tortura demasiada. Feri logo, pensa. Deterioriza o que é bonito em mim. Mesmo sendo difícil de ter, sempre há algo bonito na gente. Senão inventa. Como o pôr-do-sol. Ou um bolo confeitado. Ou qualquer coisa que seduz. Mas eu não lamento, nem tão pouco vacilo. Aprendi a driblar os fantasmas que criei. Que me transformei. Uma tormenta absurda, interna. Nem sufoca mais. É horrível aceitar ser conivente diante dessa própria perseguição, onde eu mesma me escondo. Longe. Profunda. Achar. Voltar. Renegar quase impossível. É um júbilo aceitável. Sim. Luz, câmera. Ação. Eu continuo a caça insistentemente, eu sou a caça. Mesmo sabendo que é improvável. Irreconciliável encontrar-me. Sei. Sempre soube disso, mas finjo não saber. E fujo de mim. Do terrível encontro das variantes de me ser. Da efemeridade penetrante, cá e caótica. Da realidade que faz doer. Lá. Aqui. Muito próxima deste socar. E quem feri? Imutavelmente, eu. Nocauteada por mim. Extasiada por essa inconstância. Olho roxo. Boca a sangrar. Corpo trêmulo. É ter ego fraco. Vício cruciante. Ser gentinha de conduta vil. Mas nada mudou, nunca mudou. Tudo é como deve ser. Agora. E intempestivo. Sem abismos. Sem escarros. Sem inquietude. Terno e sem nada mudar. Uma graça.

terça-feira, fevereiro 3

Só pra não perder o costume.!

Eu prometi pra mim mesma e pra qualquer outro santo, que nunca mais escreveria sobre você, meu quase amor. Mas o meu nunca é tão indecifrável, tão dono do próprio nariz, que ele insiste em querer te devorar até nas palavras, porque nos meus pensamentos, agir e sonhar, eu já não caibo mais, o rapaz de sempre me dominou por completo. É um transbordar de você em mim. Meras promessas. Meros anseios. Mera solidão. Os queridos santos que me perdoem, mas é sempre improvável esquecer uma paixão que arrebata. Porque quando eu tento dormir é em você que eu penso, talvez a causa por essa insônia infernal. Eu me descanso na sua vida de noites agitadas. E fico eufórica na ilusão do seu tentar pensar em mim. Porque quando estou prestes a me alimentar é a imagem dos seus pratos prediletos que me fazem perder a fome. Só porque te encontro nos CD’s mais românticos, nas fotos, sapos de pelúcia e naquelas cartas jamais enviadas; então me esqueço e sobrevivo somente em ti, na enorme esperança de ser algum dia a causa dos seus olhares distantes ou a mão que apazigua as suas dores. A minha vida se resume em você, ou talvez a minha morte seja por você. Morrer no meu amado é um repousar tranqüilo, é um transcender até mesmo esse quase amor. E eu te quero sim, com suas imperfeições, unhas roídas e marcas de pequenas pintinhas e grandes amores vividos e esquecidos. Apenas eu que não fiz parte do tal esquecimento, até porque nem cheguei a ser recordada como aquela do ‘felizes para sempre’. Mas venha logo, porque eu sei que esse quase amor ainda me tem em algum pedaço dessa complexidade que você se faz. E dê um tempo a todo esse ser previsível. Seja meu e serei sua eternamente. Prometo.